Cara, você perdeu uma grande mulher

Ela era intensa. Odiava meios termos e incertezas. Adiar conversas nunca foi o seu forte, e esse era o grande motivo das ligações e xingamentos na madrugada – porque não importava o quanto estava de cabeça quente, se algo a incomodava, ela não escondia. Gritava. Batia a porta na cara. Chorava. Mas não guardava, não tinha paciência para isso.

Ela era chorona, é verdade. Chorava de raiva. Chorava de tristeza. Em diversas discussões se calava por alguns segundos, não porque não tinha o que dizer, mas porque chorava e não sabia dizer não para isso. É claro, não chorava apenas por isso. Se presenciava algum tipo de injustiça com quem amava ou se assistia a todas as piores notícias dos jornais, uma ou duas lágrimas passeavam por seu rosto.

Ela era difícil. Raridade era alguém alcançar o seu coração. Ela não fugia do amor, mas tinha em mente que há muitas pessoas superficiais neste mundo, e é preciso ser cautelosa com as que tentam se aproximar. Se envolveu com a total reciprocidade apenas duas vezes em todos os seus vinte e tantos anos, não que não fosse correspondida, mas analisava o que sentia de todos os ângulos possíveis.

Ela era romântica. Aquele coração ia contra todos os tipos de bobagens que diziam sobre os românticos. “Ser romântica não é ser burra!”, ela dizia. E burra era algo que ela não era. Era do tipo que gostava de buquê de rosas e jantar a luz de velas – isso, realmente, a deixava sorridente. Não gostava dessas definições clichês de amor, acreditava que o amor não tem uma definição exata.

Ela escrevia e não eram coisas bobas. Tinha uma facilidade inexplicável de escrever o que a alma sentia. Quando não chorava ou gritava, escrevia. Se bem que escrever era uma maneira de gritar, a sua maneira de gritar. Costumava dizer que quem a lia conhecia uma pequena parte do seu imenso universo.

No início, ele pensou que ela seria apenas mais um dos seus tapas buracos. O vazio o incomodava e tê-la por perto aliviava isso. Mas no decorrer dos dias tudo o que havia planejado para ela estava se enfraquecendo. “Droga! Que mulher é essa?”, perguntava para si mesmo. Não era igual as outras, que imploravam por sua atenção, ainda que fossem apenas os restos.

Ela socava o ego dele, nunca aceitava a indiferença e não estava nem um pouco disposto a aceitar. E então, a ficha caiu para ele. Estava se apaixonando por ela e se odiava por isso. Por que naquele momento? Justo naquele momento. E ela era diferente. Não que isso fosse ruim, mas isso o atraía e se havia algo o que ele não suportava era ser atraído. Precisava dar um jeito de partir, era egoísta, não aceitava ser de ninguém. E, ainda que detestasse a ideia de machucá-la, enxergava isso como a única desculpa para partir sem dar explicações. E foi exatamente o que fez.

The end? Oh, não! Esse texto não termina assim, seria sem graça, não acha? Escrevi a história de um quase amor, mas é a vez de escrever para você. É, cara, você.

O seu peito não arde ao ler esse texto? Como teve a coragem de machucá-la e deixá-la no passado? E por quê? Para sentir que está no controle de tudo? Para se sentir livre? E quem disse que a intenção dela era tirar a sua liberdade? Ela explicou tantas vezes que todo passarinho, ainda que livre, retorna para casa após um voo. Mas o que aconteceu com o seu coração? O orgulho predominou? Você tem a noção do quão raro é encontrar uma mulher como aquela? Você já parou para pensar que ela foi a única capaz de se aproximar do seu coração? Você, realmente, não a merece. Você perdeu uma grande mulher.

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Laureane Antunes

Colecionadora de sonhos, não importa o quanto pareçam bobos. Da minha fé, faço poesia, assim a eternizo em minhas palavras. Estou por aqui apenas de passagem, o Céu me aguarda. Autora e criadora do blog Alma com Flores.

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