Inesperadamente ele se tornou meu mundo [Parte 3/3]

Tatielle Katluryn
jan 13, 2017
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Não houve beijo, abraço, nova chance. Era uma amizade mais colorida que o próprio arco-íris, e eu não sabia como passar disso, parecia que era algo mais quando quase nada tinha. Eu cavei minha cova e lá mesmo me enterrei. Eu só queria ser feliz, mas sei que eu mesma não me deixo ser. Tenho que aprender a me amar primeiro, a me querer, a me desejar o melhor, não posso me entregar quando nem eu mesma me tenho por inteira, nem eu sou o amor da minha vida.  Por isso já estava decidida a me trancar na mais alta nuvem, ficar olhando lá de cima os doces mortais a se deliciar em suas próprias decepções e me acostumar a ser só tão quanto o dia que nasci. Mas ele bateu na porta insistentemente e nesse dia eu abri, entrou sem pedir permissão e foi falando antes que eu tivesse chance de interromper.

Disse que não entendia o porquê de eu estar assim, que não fazia sentido um dia eu ser alguém amigável e no outro uma pessoa amarga e ridícula. Que sentia minha falta muito mais do que eu era capaz de imaginar, nada mais nesse mundo ele queria do que estar do meu lado e poder rir da ganância dos poderosos junto comigo. Eu chorei. Ele me abraçou e pediu desculpas por erros que nem chegou a cometer. Falou que sabia que era o culpado daquilo e já sabia até o porquê, era que ele não havia assumido a responsabilidade de homem e feito um compromisso sério comigo, e foi quando afastou meu rosto de seu ombro e me obrigou a olhar aqueles olhos castanhos.

Fiquei parada respirando com dificuldade e pedindo a Deus para ele não me beijar porque provavelmente eu não o afastaria e o beijaria de volta. E ele me disse que era cedo para falar aquilo, mas que o coração dele não escolheu o tempo certo e que me amou, e que me amava até mais que conseguia se lembrar de amar a si mesmo, eu estava em cada um de seus pensamentos, me queria para toda a vida e que eu devia não somente ser sua namorada, mas além disso, pediu que eu o aceitasse como futuro marido.

Eu protestei, disse que tudo aquilo não passava de mentira, que era uma brincadeira sem graça e que nunca o perdoarei por me enganar assim. Ele me abraçou mais forte e me chamou de louca, e eu voltei a desmoronar e disse entre lágrimas que eu não era boa o suficiente para ele, não fazia o menor sentido ele me amar, ninguém nunca amou então era mentira ele conseguir isso.

Ele me respondeu com calma e com paciência escolheu cada palavra.

– Deus afastou de você todos aqueles que podiam te causar algum mal, por isso até agora ninguém conseguiu te conquistar, porque ninguém poderia ser capaz de te amar como você merece ser amada. E eu estou aqui porque chegou o momento certo, eu sei que posso parecer muito confiante ao me autodeclarar a pessoa por quem você sempre esperou. Mas eu não consigo ver nossa situação de outra forma, era para ser e por isso estou aqui te pedindo para me deixar entrar na sua vida e te fazer feliz.

Não deu outra, a gente se beijou. Minutos depois meu pai chegou, eles conversaram e posso dizer que Deus sempre me surpreende com o melhor, e não deixou que o medo me inundasse e me fizesse perder a minha única oportunidade de felicidade. Ás vezes pessoas vem para nos machucar, em outras elas vem para nos sarar, e ele foi minha cura, e por mais improvável que seja eu aceitei que por mais que o meu eu não fosse bom para mais ninguém, era perfeito para ele, só para ele.

Então dias se passaram e eu acordava achando que tudo não passara de um sonho, e que quando eu levantasse da cama eu saberia que ele era uma mentira que minha mente havia criado. Mas não. Eu botei a mão sobre o criado mudo e peguei meu celular, deslizei o bloqueio de tela e já tinha quatro mensagens dele. E até onde eu sabia personagens de sonhos não mandam mensagens de texto. Eu estava tão ansiosa naquela manhã porque não seria mais um dia comum, eu iria finalmente conhecer a família dele e pensar nisso me deixou enjoada. Quase não toquei no café e enquanto eu o esperava eu ficava toda hora indo ao banheiro para checar a maquiagem.

Fiquei com medo do meu perfume está forte demais e a mãe dele odiar aquele cheiro, ela também poderia não aprovar o vestido florido que eu estava usado, nem gostar da tonalidade do meu batom, então minhas mãos suaram e meu corpo todo se arrepiou. E se ela não gostasse de mim? Ele iria me deixar por causa disso? Ele era simplesmente louco por sua mãe que o criara sozinha porque seu pai os deixou quando ele ainda era criança. Ela era a pessoa que ele mais confiava nesse mundo, ela era sua melhor amiga, o seu tudo, enquanto eu também significada muito para ele só que não tanto quanto ela, porque obviamente ela era a mãe dele e isso explica tudo.

A mãe dele poderia querer uma nora diferente, uma pessoa já formada com bom emprego e um status poderoso naquela cidade. Eu sabia que ela não era do tipo superficial e ela iria me aceitar do jeito que eu era, e ele garantiu isso para mim milhares de vezes, mas como boa pessimista eu preferi acreditar que ela era uma bruxa que me odiaria logo de cara. Não que ela já tivesse dado motivo para isso, mas meu medo de perdê-lo era tão grande que eu incontrolavelmente criava motivos banais para ele me deixar. No dia seguinte que eu o aceitei como namorado eu já inventei uma história estúpida de que ele não teria tempo para mim e que seria melhor eu deixa-lo livre com suas obrigações. Ele com toda paciência me repassou de novo seus horários e disse quando e onde nos encontraríamos, tudo combinado e perfeitamente possível.

Se eu tivesse que descrever ele em uma palavra seria essa: paciência. Não havia nada mais paciente no mundo do que aquele rapaz. Até meus próprios pais ficaram abismados com o jeito que o garoto me tratava, nem minha mãe conseguia me tolerar tão quanto ele e isso só fazia aumentar o carinho que minha família sentia por ele. Enfim a campainha tocou e eu saí correndo sem me preocupar que tamanha ansiedade fosse arrancar gargalhas dele e deixar meu rosto vermelho. Ele levantou a sobrancelha esquerda quando me viu e mordeu o lábio inferior.

– Você está indo para algum casamento?

– Talvez para o nosso se sua mãe gostar de mim.

– Vem cá.

Dito isso ele me puxou e me deu um beijo, meu pai tossiu atrás de mim e eu me virei bruscamente. Meu rosto devia estar como um tomate maduro.

– Bom dia, senhor. – ele cumprimentou meu pai.

– Bom dia, jovem.

O clima ficou estranho entre nós e eu não fazia ideia do que fazer.

– Pai, já estamos indo, eu volto depois do almoço.

– Na verdade, eu tenho uma surpresa para você á tarde, então acho que vamos voltar á noite. Eu já pedi para o seus pais por telefone.

– E por que você não me contou? – eu indaguei a ele.

– Como eu disse, era uma surpresa.

Se eu tivesse planejado algo e ele tivesse estragado a surpresa eu teria ficado muito zangada, mas ele era diferente de mim graça a Deus, porque em vez da raiva ele sorriu e se despediu do meu pai, me puxou pela mão e eu saí de casa. Conversamos tanto pelo caminho como se não tivéssemos ficado batendo papo até duas da manhã.  Era tão fácil ser eu mesma ao lado dele que o mundo ao redor sumia. A menina que ninguém gostava encontrou o menino capaz de ama-la. O nós nunca ficou tão bonito assim, o amor não era fantasia e sim real, eu descobri isso através dele.

Chegando na casa dele fui muito bem recebida por sua mãe que foi um doce de pessoa comigo. Ela superou todos os meus temores e me tratou como se eu fosse sua própria filha. E eu percebi da onde vinha tamanha amabilidade dele, de quem ele aprendeu a ser aquela pessoa incrível, sua mãe era um exemplo que ele seguiu e por causa dela ele era carinhoso, cavalheiro, respeitador e atencioso. Como eu amava o filho dela instantaneamente eu a amei também.

O tempo voou ao lado deles e eu me diverti tanto que por várias vezes fiquei com dor de barriga de tanto rir daqueles dois. Eles eram uma família tão feliz e completa que quase não reparei que ali faltava um pai, e o momento estava tão bom que nem fiz questão de mencionar o nome dele. Então a tarde chegou e ele me puxou para o canto, botou suas mãos no meu rosto me obrigando a não desviar dos olhos dele enquanto ele falava algo importante.

– Se lembra de quando eu falei que meu compromisso contigo não era somente de namorado e sim de futuro marido?

– Lembro. – foi a única coisa que consegui dizer.

– É que promessas não valem nada a não ser que você as cumpra, certo? E por isso eu quero te mostrar uma coisa.

Ele beijou minha testa e tirando as mãos do meu rosto me levou para o quintal. Lá estava um homem vestido um terno branco tocando violão e ao lado dele estavam meu pai e minha mãe segurando juntos uma faixa enorme que dizia: “Não precisa casar comigo na semana que vem, mas você me aceita como seu futuro marido?” Olhei para a faixa e reli duzentas vezes o que estava escrito nela. Depois encarei meu pai sorridente e minha mãe chorona, passei os olhos pelo homem estranho que cantava e tocava minha música preferida. Ainda haviam pedalas de rosas espalhadas pelo chão e um caminho de velinhas acesas levavam até meus pais. Eu corri e os abracei forte, depois fui abraçar também o cara desconhecido que cantava lindamente.

O resto já é imaginável. Buquê de rosas, beijos demorados, lágrimas, promessas cumpridas e uma felicidade que deveria durar até o fim de nossas vidas.

FIM

Escrito por: Tatielle Katluryn

Leia também
Parte 1: Ele me viu quando eu era invisível para o mundo
Parte 2: Como se eu fosse única para ele no mundo

Autora do blog www.elajafoiverao.gq

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