Não era pra ser ou você não quis?

O “não era para ser” transformou-se na desculpa perfeita dos covardes. A mentira mais utilizada quando se quer transferir responsabilidades. Não era para ser. Pronto. O argumento acaba com a paciência de quem espera uma resposta honesta. Seria sensato dizer “eu não quis”. Mas o “não era para ser” é o refúgio favorito dos que não assumem as próprias decisões.

Convocam o destino para assumir a bronca e saem de cena com mais uma etapa da covardia concluída com sucesso.

“Não era para ser” o que até ali existia muito bem. “Não era para ser” até o outro revelar sobre o amor que sente. “Foi engano. Eu não estava preparado”. Como assim? Quem entra numa relação e vive uma história demonstrando de várias formas que está feliz e, de repente, diante da declaração do outro, diz que não era bem isso.

Era uma tentativa, uma brincadeira, um jogo? Existe tentativa de amar? Se já na intenção não houver afeto genuíno? “Não era para ser” o que até ali foi? Era amor ou simulação? Formalizar o amor é assinar o atestado de óbito da relação atual?

Mesmo se o amor do outro já estiver consolidado? A disposição de ir mais longe de mãos dadas é o princípio do fim? Outro dia alguém me disse “Tudo ia bem, até eu falar sobre o meu desejo de tornar a relação mais sólida, formalizar tudo, desejar um futuro juntos”.

O suposto amor só seria possível na clandestinidade, no anonimato. Pensei sobre o que havia acabado de escutar e disse “Aí tem alguma coisa errada, deve ter alguém ou é daqueles que pulam do barco em alto-mar”.

Ouvi o relato sem esconder a tristeza, bem perto de mim alguém lamentava por ter dado tudo de si e agora tinha de lidar com o vazio da falta de respostas, com a fuga premeditada de quem vivia um passatempo como se fosse uma relação sólida. O aviso de que a união era para valer assustou o que a encarava como um talvez.

“Não era para ser” não é argumento, é rota de fuga de quem usa o amor do outro para se gabar de que mesmo com todo conforto para ficar, decide transitar entre a dúvida e a ostentação de não se prender a nada, como se já não estivesse acorrentado à ideia imbecil de não enganar o outro, sabendo-se enganador de si mesmo.

Ester Chaves