Ciúme

Tenho ciúmes, nem imagina, queria que fossem só meus, esses fiapos de atenção que você distribui pelos outros ao longo do dia. Tenho ciúmes da mulher que cruza na rua pela manhã, que passa apressada e sombria sem perceber seu perfume.

Tenho ciúmes da tua professora que partilha contigo o metro quadrado na sala da tua escola, respirando ambos o mesmo ar; da tua colega de classe, que chega por trás e se debruça perigosamente sobre essa nuca que é minha, para te mostrar uma atividade qualquer; e da empregada da cantina, que te agrada com o que você gosta, te sugerindo as especialidades do dia, e a quem você sorri alheio enquanto pede algo qualquer da lista fazendo pose para impressionar quem se senta ao teu lado.

Tenho ciúmes de quem se senta ao teu lado e usufrui de toda a tua atenção; e da loira que atravessa a rua, a quem você dá prioridade e deixa passar à frente com um aceno de cabeça e um olhar de raspão, desfocado mas atrevido. E das que olham para ti na rua e te examinam o dedo anelar, tentando perceber se é casado, se está disponível ou se ambas as coisas.

Tenho ciúmes das que têm coragem para te abordar de rompante num bar e te beijam na boca como se fosses delas (e por momentos até é), te arrastam para um quarto, te viram do avesso e te deixam; das vendedoras da praça que te tratam por menino; e da moça gentil da farmácia onde te despacha teus sorines, já que tu não vive sem, do tempo que demora no balcão, fazendo conversa, conferindo dosagens, pedindo recibos.

Tenho ciúmes da velhota da pastelaria que te conhece há anos e que te tremelica uns bons dias com familiaridade deslocada. Ciúmes de quem possa tocar teu rosto, nessas tuas manias de vaidade quando vai fazer a sobrancelha.

Tenho ciúmes da mulher que pode ser tua, da indiferença que lhe dará quando chegar em casa, das conversas geladas sobre domesticidades; e tenho ciúmes da tua empregada, que espaneja e arruma os restos de ti que sobram pela casa quando não está, recolhendo em sacos de aspirador os teus cheiros e essa tristeza que deixa depositada nos cantos.

Se tenho ciúmes? Imagina.

Autora: Eduarda Briara