Se não tu, quem mais?

Quem mais, me deixaria encarando amorosamente, após chegar toda linda com um vestido florido, depois de atrasar como sempre, e perguntar: Vai me levar aonde mesmo?

Quem mais, me faria arrepiar, ao me dar um beijo gostoso, com um daqueles batons de tom forte, que insiste em me deixar de batom, sempre?

Quem mais, me provocaria ao mesmo tempo, extrema admiração e preocupação, por segurar o mundo alheio nas costas, com um sorriso no rosto, enquanto desaba no banho?

Quem mais, me faria rir, ao ouvir reclamar por ter que acordar cedo, quando poderia dormir até tarde?

Quem mais, me deixaria apaixonado, por não ser fã de café, mas ainda assim me acompanhar, enquanto olha com desdém para os doces no balcão da padaria, dizendo que nenhum está com a cara boa?

Quem mais, me diria, ‘ouve isso aqui’, e iria pondo fone no meu ouvido, com total liberdade?

Gilberto Rodrigues
Psicólogo Clínico – UK

O cinza dos seus olhos tem a cor da minha felicidade

Seus olhos eram cinzentos.
Antes de te conhecer, relacionava o tom de chumbo com coisas mórbidas, frias. Um céu cinza, tempestade. A tempestade que destrói passeios alegres no parque enquanto crianças brincam e casais passeiam, a chuva que faz você correr para alcançar o trabalho e pode destruir seus melhores planos. A cor das cinzas de um fogo que se apagou e que deteriorou a madeira, transformando-a em uma substancia sem traços de calor. O metal que afasta e a incompreensão inicial de filmes antigos e sem voz. A frieza do inverno e de uma vida sem cor. Ou melhor, uma única cor.

Cinza.
Mas então, através dos seus olhos, pude presenciar muito mais do que aquilo que pensava. Parece bobo, mas nunca tinha conectado essa cor com algo bom. Eu evitava até mesmo usá-la. Tenho quase certeza que a única roupa que tinha dessa cor era um blusão tricotado por minha avó, um exemplar cheio de furos e que cheirava mofo no fundo da gaveta, atropelado por uma centena de roupas com espectro vermelho, prata e laranja. Eu me considerava uma pessoa enérgica que buscava cores vivas e não enxergava alegria nesse tom.
Mas então você surgiu e sorriu, mostrou felicidade apenas com um olhar carregado da poeira cinzenta do mistério e da amizade.

Foi como se uma parede dentro de mim desmoronasse.
Conforme eu passava os dias com você, entre trocas de e-mails, mensagens noturnas e cafés não programados no centro, comecei a perceber todas as coisas maravilhosas que tinham a cor e a verdade dos seus olhos.
Coincidência ou não, nosso primeiro encontro foi na estação mais fria do ano. E pela primeira vez não pensei em tristeza, mas na magia daquelas cores pálidas refletidas em um sol muito baixo, mas perfeito para iluminar a chama de um beijo.

E o cinza-asfalto do seu casaco, impregnado com seu cheiro? Eu poderia simplesmente me perder ali entre seus braços aquecidos e promessas de um hoje.

Alguns relacionavam o cinza com o velho e obsoleto, mas nunca havia me sentido tão jovem enquanto me entregava a você e ao seu olhar.

Comecei a apreciar dias de tempestade. Nuvens nebulosas me lembravam de suas palavras, a eletricidade das nuvens o seu olhar que me despertava. E a chuva? Os beijos que você me roubava enquanto todo o resto desaparecia, enquanto o mundo corria e se protegia e tudo que queríamos era continuar.

E eu pensava que o dourado era a cor mais alegre e triste, que o cinza era apenas para dias de luto e melancolia.

É você realmente conseguiu me provar o contrário.

Autora: Vanessa Silvana

Amar é sobre querer ficar

Não gosto de categorizar o amor como fácil ou difícil. Tudo é circunstancial e nós estamos falando de pessoas, de sentimentos, de rotina.

Só que é fácil amar o outro enquanto ele lhe faz uma surpresa no meio da semana. É fácil amar no silêncio da noite, encaixados um ao outro. É fácil amar quando ele sorri e durante as conversas intermináveis sobre política e temas banais. É fácil amar em um dia de Sol na praia tomando água de coco e batendo fotos para postar no Instagram.

Mas é difícil, não é? É difícil amar quando ele está com a cara emburrada na frente dos seus amigos e você nem sabe o porquê. É difícil amar quando está cansada do trabalho e ele quer ficar conversando sobre algum assunto que não te interessa. É difícil amar quando ele esquece aquele compromisso que você falou mil e uma vezes.

Na verdade, o amor em si é muito simples. Você sabe que ama aquela pessoa e pronto. Não tem mistério, perceber e assumir o que sente é até leve.

Mas além disso, amar é convivência. É qualidade e defeito. É insistir e ceder. É dia bom e dia ruim, às vezes as duas coisas em 24 horas. É abraço apertado e saudade que dói. É estresse, é calmaria, é briga e muita risada.

E é justamente por esse emaranhado de momentos e sensações que as pessoas se perdem. É pelo medo ou por subestimar que a gente se engana com a ideia de amar. Não é tão difícil quanto dizem nem tão fácil quanto a gente gostaria, é um pouco mais óbvio que isso: é tudo uma questão de querer fazer dar certo.

Entre limitações e suas superações, amar é sobre querer ficar e cada vez mais evoluir – juntos.

Autora: Maria Carolina Araújo | Miragem Real

Eu não sou uma má namorada

Eu não sou uma má namorada.
Não precisa falar comigo 24 horas.
Pode jogar.
Pode sair com seus amigos.
Pode curtir a foto dos outros.
Pode falar com quem quiser.
Só não quero que tu fume maconha. 

Eu não sou uma má namorada.

Pode ir sozinho, amor. To cansada, vou ficar em casa hoje.
Eu não sou uma má namorada.
Passa horas sem me responder ou dar notícias. Não conseguia pegar no sono por preocupação.
4 horas da manhã você me responde dizendo que estava numa festa com os amigos. Fingi não ligar pra não brigar com você, mas custava avisar?
 Disse que não sabia que iria pra festa, que seus amigos decidiram de última hora.
Disse que não tinha feito nada, nem me traído, que não tinha motivos pra eu ficar encanada.
Disse que se eu não confiava em você não tinha motivo pra estarmos juntos.
Eu não sou uma má namorada. Acreditei em você.

Eu não sou uma má namorada. 

As suas amigas ficavam rindo de mim nas minhas costas.
Ainda assim acreditei em você.
Eu não sou uma má namorada.
Vi você trocando fotos e de papo com uma amiga.
Para de falar com ela, você tem namorada.
Vi você de papo com mais outra.
E você me apresentou a insegurança.
Eu não sou uma má namorada.
Descobri a verdade. Você já tinha combinado de ir naquela festa com seus amigos e as amigas. 
Você baixou a cabeça e disse que não sabia o que dizer.
Eu disse: “deixa pra lá, faz tempo. “

Eu não sou uma má namorada.

Vou no shopping com a minha mãe. Vou na minha avó. O cara da internet ta aqui em casa. Vou comer. Vou tomar banho. Vou dormir. Mas ia jogar?
E pra que mentir? Me senti mal. Deixa o jogo um pouco pra lá. 
Eu não sou uma má namorada.
Vou dormir, tenho que ir pra aula amanhã cedo. 
Mas eu to de férias, amor, fica mais um pouco.
Eu tenho que ir, amor. Desculpa.
Mas ia jogar. Tudo bem. Eu desisto. Fica com esse jogo.

Eu não sou uma má namorada. 

Você começou a inventar desculpas, qualquer coisa era mais importante do que falar comigo.
Eu não sou uma má namorada.
Mas ainda confiava em você.
Eu não sou uma má namorada.
Sempre que ia na sua casa, você ficava jogando ou dormia. E eu chorava por dentro por não me dar atenção e preferir um jogo do que o meu amor.
Eu não sou uma má namorada, você que me tornou.
Para de falar com suas amigas.
Da unfollow.
Exclui.
Me da todas as suas senhas.
Não vai sair com amigo não.
Não vai dormir na casa dele não.
Fica em casa. Vai jogar. 

Eu não sou uma má namorada.

Você terminou comigo porque disse que não me amava. 
Eu chorei desesperada por não entender sua explicação, que pra mim não faz sentido até hoje. 
Esperei você se arrepender e mudar de ideia, mas não mudou.
Eu não sou uma má namorada.
Você terminou comigo porque não sabia o que queria.
Eu não sou uma má namorada. Você terminou comigo porque queria ter seus amigos de volta e sua fama de pegador.
Eu não sou uma má namorada.
Você terminou comigo porque não queria mais que fossemos só nós dois no mundo.
Eu não sou uma má namorada.
Você terminou comigo porque disse que ainda não tinha esquecido a sua ex.
Eu não sou uma má namorada, você que me tornou.

Eu não sou uma má namorada, você que me colocou defeitos.Você que me apresentou a insegurança. Acabou com a confiança. Apresentou a falta dela. 

Você que acabou com o namoro bom, livre, e saudável que eu te dei. Você que trouxe o sufoco, as brigas, o desgaste dele.
E o pior.
Colocou tudo em cima de mim, como se eu tivesse danificado a gente, enquanto você que tinha feito isso. Eu nunca deixei a gente apesar dos teus erros, por não ter colocado todos esses motivos acima como os primórdios. Eu preferi nos filtrar.
Deixar os momentos bons pesarem mais, por que estes me fazem sorrir. 
Por mais que depois que eu virasse as coisas você esquecesse que eu existia.

Decidi seguir a frase que o humano erra.
Decidi te dar todas as chances do mundo de mudar.
Decidi te ensinar com amor.
Preferi acreditar que você ia amadurecer com os erros.
Preferi milhares de coisas.
Até que preferi morrer. E renascer.
E renascendo, sou outra.
E sendo outra,
não existe mais nada disso.

Autora: Sabrina Sá
Imagem: Karyna Rangel

Nessa brincadeira de pouco demonstrar, muitos não vão mais sentir.

Vivemos na era na qual não podemos demonstrar o quanto nos importamos. Entramos em uma guerra que não é nossa. Nunca foi. Não podemos demonstrar, não podemos falar, não podemos sentir. A nossa geração tem um manual para tudo. Vivemos na norma culta do robotizado onde tudo tem uma regra específica. Essa geração se importa mais com os padrões do que a própria felicidade. O meu problema é que eu não sei jogar com essas regras. Sou admiradora de antigos valores que hoje não tem mais importância.

O olho no olho perdeu espaço. O calor das palavras não tem nenhum valor. Demonstrar interesse ou sentimentos é visto como algo ultrapassado. Vivemos na era em que pessoas viraram máquinas. E que máquinas estão se tornando pessoas. Tudo está invertido. A vida parece perdida. As pessoas andam sem rumo, sem calor, sem alma, sem tudo. O que eu estou fazendo nesse mundo de pessoas frias?

Eu quero viver sem ter que seguir essas regras. Precisamos viver sem obedecer um manual. A vida é um sopro. Não vale a pena fugir do que faz a vida tão incrível. Não podemos nos privar de aproveitar todas as oportunidades que apareçam. Quero viver por inteiro. Sentir por inteiro. Demonstrar por inteiro. Amar por inteiro. Acertar por inteiro. Errar por inteiro. Aprender. E fazer tudo de novo.

Quero correr estupidamente atrás da felicidade. Quero sonhar. Quero me decepcionar. Quero recomeçar. Quero vida.
Essa geração do pouco me importo, do pouco sinto, do pouco demonstro não está com nada. Vocês ficam aí entre curtidas, fotos compartilhadas e falsos sentimentos. Enquanto isso, a vida passa. Estamos perdendo o tempo de sermos felizes. Vamos nos permitir viver, simplesmente. Sem rótulos, sem julgamentos, sem manuais e sem regras. A vida é breve demais!

Autora: Larissa Marques